"Há muito que venho me preocupando com os caminhos da educação brasileira.
Fico, por muitas vezes, me indagando qual será o destino destes jovens tão descomprometidos com o seu futuro, tão pouco interessados em ter algum tipo de conhecimento, ou mesmo uma aprendizagem que possa ser-lhes útil para uma vida profissional e quiçá, uma mudança de condição social.
E por mais que eu entenda que os valores estão mudados, custa-me a aceitar que para esses jovens faltar ao respeito com uma pessoa mais velha que eles, seja algo tão comum, e o pior ainda , é quando esta pessoa é uma professora, que tenta fazer o melhor possível o seu trabalho, sem levar em conta suas condições para realizá-lo ou quanto o Estado lhe remunera por tal tarefa.
Quando eu entro numa sala de aula como o 3° C do noturno deste ano e me deparo com alunos sentados agrupados na mais impressionante desordem, que não conseguem se desgrudar do celular, nem tirar os fones do ouvido, ou ainda não conseguem ficar sem falar com algum colega e ainda não ligam a mínima para a professora que está apenas fazendo o seu trabalho, entro em desespero. Meu cérebro tenta entender e ao mesmo tempo quero colocar as coisas em ordem, mas a minha cruzada é em vão.
Os alunos, deliberadamente, cinicamente, riem das broncas que dou, trocam olhares insultuosos e se não bastassem gestos e risos ainda proferem palavras ofensivas me chamando “de louca, de incapaz de por ordem na classe, e que eu sou sem educação" porque acabo alterando a minha voz ao exigir deles um mínimo de postura em sala de aula.
Hoje, ao aplicar a prova nesta classe, algum aluno, não sei quem, deixou seu celular tocar música de propósito para me deixar alterada. Como já venho impaciente com esse tipo de comportamento, me alterei e cheguei ao ponto de colocar um aluno para fora da classe (Wellington), quando então, a Camila ficou na defesa do referido aluno e me desacatou com as palavras citadas acima, dizendo ainda que “eu deveria me aposentar e ficar em casa vendo televisão”.
Não me recordo de já ter vivenciado semelhante experiência para realizar o meu trabalho, do qual gosto muito e sei da minha capacidade em realizá-lo.
Não sei se esse desabafo terá alguma serventia, ou será mais um dentre tantos outros que lemos por aí, mas escrevi por uma necessidade premente de organizar os meus pensamentos e acalmar o meu coração."
Elizabeth de Lima Mendonça
Professora desde 16 de agosto de 1981